De novo aqui, caro cupido?
Teus voos rasos e olhar sagaz
Ao observar as pessoas sobre o cais.
Gente fria de andar ríspido.
Observa a todos esses seres,
Inveja a liberdade deles
E por isso os odeia a esmo,
Com ódio inspirado nos mesmos.
Sofrimento em todo o lugar.
Sentimento que turva a alma.
Cheiro fétido que polui o ar.
Análise finda, parte à ação.
Como não pode curar feridas,
As inflama, com flechas de paixão.
"E, havendo aberto o Sétimo Selo, fez-se silêncio no Céu por quase meia hora." Apocalipse cap. 8 vers. 1.
domingo, 12 de abril de 2009
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
SEGUNDA-FEIRA
O dia estava normal. Matematicamente normal naquela manhã: pássaros passariando, folhas caindo, pessoas compromissadas – a futilidade vestindo-se de rotina. Eu? Só estava sentado.
Esperava, tristemente, minha aula começar (eram 8:30 do título e meu professor estava religiosamente com improvisos de horário) e comia uma criminosa fatia de bolo - mole - é claro, e tomava um providencial café com leite. Foi quando o vi. Vagaroso e decidido, passando por entre os banquinhos que formam as pracinhas da universidade.
Era apenas mais um (dentre tantos) que vadiam pelo campus: gatos, alunos, pombos, servidores, insetos, livros, carros, problemas e dúvidas... Não me chamou particularmente a atenção, mas como estava vindo na direção do meu olhar, pude observá-lo melhor: estava magro, ossudo até (provavelmente, como os irmãos), sujo sim, mas não repulsivo. Compartilhava com todos o derrotismo de sonhos destroçados e a dignidade encontrável apenas naqueles que nada têm.
Seu gingado era um lamento, como se a qualquer momento, fosse desabar ao cimento, de tanto mal-estar. O peso da fome não se pode disfarçar. Aproximou-se. Fitou-me com seus olhos de lamúria. Não foi difícil perceber o que precisava. Apenas uma migalha de atenção, um pedaço de carinho, uma fatia de afago. Joguei-lhe minhas sobras (não tinha nada mais) e pude perceber seus dentes – os poucos que restavam – amarelados e desgastados, acostumados, quem sabe, à ossos e a indiferença, às esmolas e pontapés.
Observei-o seguir adiante (o que mais lhe restava?), cambaleante e patético. Triste, rotineiramente triste. Mordiscando o começo de seu dia.
Esperava, tristemente, minha aula começar (eram 8:30 do título e meu professor estava religiosamente com improvisos de horário) e comia uma criminosa fatia de bolo - mole - é claro, e tomava um providencial café com leite. Foi quando o vi. Vagaroso e decidido, passando por entre os banquinhos que formam as pracinhas da universidade.
Era apenas mais um (dentre tantos) que vadiam pelo campus: gatos, alunos, pombos, servidores, insetos, livros, carros, problemas e dúvidas... Não me chamou particularmente a atenção, mas como estava vindo na direção do meu olhar, pude observá-lo melhor: estava magro, ossudo até (provavelmente, como os irmãos), sujo sim, mas não repulsivo. Compartilhava com todos o derrotismo de sonhos destroçados e a dignidade encontrável apenas naqueles que nada têm.
Seu gingado era um lamento, como se a qualquer momento, fosse desabar ao cimento, de tanto mal-estar. O peso da fome não se pode disfarçar. Aproximou-se. Fitou-me com seus olhos de lamúria. Não foi difícil perceber o que precisava. Apenas uma migalha de atenção, um pedaço de carinho, uma fatia de afago. Joguei-lhe minhas sobras (não tinha nada mais) e pude perceber seus dentes – os poucos que restavam – amarelados e desgastados, acostumados, quem sabe, à ossos e a indiferença, às esmolas e pontapés.
Observei-o seguir adiante (o que mais lhe restava?), cambaleante e patético. Triste, rotineiramente triste. Mordiscando o começo de seu dia.
Chagas Infernais
a Fome,
Alex Sampa,
Conto,
Cotidiano
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Garotos Podres no ônibus

Ele viu três garotos podres
Feios e imundos
Exalando o pior dos odores
a relação entre dois mundos.
No mundo da economia ativa
a briga é por espaço e reconhecimento
Na favela sem perspectiva
Basta um espaço no cimento.
E naquele rápido instante
os mundos se tocaram
mas o barulho cortante
da parada logo os separaram.
Feios e imundos
Exalando o pior dos odores
a relação entre dois mundos.
No mundo da economia ativa
a briga é por espaço e reconhecimento
Na favela sem perspectiva
Basta um espaço no cimento.
E naquele rápido instante
os mundos se tocaram
mas o barulho cortante
da parada logo os separaram.
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