Melhor morrer de vodca do que morrer de tédio!
Maiakosvki
O armário abarrotado. As paredes nuas. A escrivaninha desorganizada. Uma vida resumida em três imagens.
A cama simetricamente arrumada e com um cheiro de perfume barato de uma mulher bem valiosa...
Sobre a ponta da cama arrumo minha mala, decido lentamente o que caberá neste micromundo. Entre as vitais prioridades estão os Livros, a Vodca e as prostitutas e a partir dessa nova trindade defino um critério, critério decepado pela realidade crua e ensandecida que proíbe de carregar o melhor da trindade; a paralisação do tempo, o excesso de embriaguez e a sinceridade das putas.
Como não posso encarcerar tais sensações, logo me reservo a eleger alguns livros: A bíblia é escolha obrigatória, afinal a viagem é longa e o riso se faz necessário. O outro livro é o anticristo, um manual e uma armadura contra os covardes e deístas de plantão. O Restante jogo ao alto, os que cairem dentro da minha mala ficarão, o restante deixo aos vermes e insetos, leitores mais utéis do que vocês.
No canto extremo direito guardo duas garrafas de vodca, saborosas e refinadas quanto um sábado em um Gulag tendo o Stalin como Guia. Tais Vodcas são simbólicas e remetem ao meu passado revolucionário, por isso as comprei na Wall Mart mais próxima de meu apartamento de 1000 metros quadrados.
No restante da mala, e ainda restava muito espaço, serão apenas para os meus verdaeiros amores: as putinhas, e não falo apenas das agiotas do amor profissionais, falo das amadoras também que buscaram através de sua roupagem de pessoa honesta esconder a verdaeira e mais bela face. Eis que chego a uma encruzilhada existencial, mais difícil de minha longa jornada. Pedaços de livros e vodcas são factualmente possíveis de guardar e as putas, como guardarei os seus pedaços mais ... é ... singelos.
Não! Caro Manson, não posso... arrancar os pedaços das garotas, tenho que ser solidário com os companheiros que virão. Contento-me com o vazio físico da mala, preenchendo apenas com o étereo das ilusões de amor que deixei e o rosto verdadeiro de prazer quando uma agiota profissional, conta o seu dinheiro vai embora do quarto.
A prostituta só enlouquece excepcionalmente.
A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios
escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira.
Nelson Rodrigues